"Toda unanimidade é burra"
“Estamos vivendo a época das passeatas estudantis. Tudo é um pretexto para desfiles. Se há uma greve de barbeiros, de alfaiates, de veterinários, de obstetras, logo a juventude promove uma marcha.”
Há algo mais inútil do que promover uma passeata contra a corrupção sem propor uma solução concreta? É como ser contra a injustiça, mas nunca estabelecer o que é justo. Assim, até os injustos desfilam, e com prazer, já que não serão reconhecidos em meio a multidão de narizes de palhaço. Hoje ou trinta, quarenta anos atrás, é o que basta para parecer bom, bonito e verdadeiro: se dizer revoltado e desfilar de nariz de palhaço. Prontamente, Nelson diria: “Realmente, há muita indignação. Não se dá um passo sem esbarrar, sem tropeçar nos indignados de ambos os sexos.”
Todo artista tem a dimensão profética: é capaz de dar atualidade e presença tanto ao passado como ao futuro. Nelson era um profeta no sentido em que, com sua espantosa vidência, olhava o óbvio e dizia: – “ali está o óbvio.” Para os outros, o óbvio é sempre invisível. Ele percebeu que o grande acontecimento do século XX foi justamente a socialização do idiota. Pela primeira vez o idiota se organizava, formava massas, unanimidades, maiorias, assembléias, etc.. Antigamente, os idiotas sabiam que eram idiotas, mas diante de sua superioridade numérica, passaram a exigir o direito de opinar e de ocupar cargos profissionais importantes (até o da presidência). Há os que fingem de idiotas para sobreviver. Para Nelson, um mistério nada misterioso – ou o sujeito bajula os idiotas ou não terá onde cair morto: “Há uma debilidade mental difusa, volatizada, atmosférica[…]Todos agem e reagem como imbecis. Não que o sejam, absolutamente[…]Mas num mundo de débeis mentais, temos de imitá-los. Não sei se me entendem. Mas para viver, para sobreviver, para coexistir com os demais, o sujeito precisa ir ao fundo do quintal e lá enterrar todo o seu íntimo tesouro. Hei de escrever, um dia, sobre a nova classe dos falsos creti nos.”
“Ao meu ver, nunca optamos tão pouco. Somos pré-fabricados. É difícil para o homem moderno ousar um movimento próprio. Nossa vida é a soma de ideias feitas, de frases feitas, de sentimentos feitos, de atos feitos, de ódios feitos, de angústia feita.”
“A partir do momento em que o homem se tornou um ser histórico, o erotismo passou a sofrer uns tantos ou quantos constrangimentos, limites, etc., etc.[…]Se abolirmos tais constrangimentos, os tais limites, que disciplinam o erotismo, acontecerá o diabo[…]O que é o crime sexual senão o erotismo em sua plena liberdade e irresponsabilidade?”
“O homem se mata por amor e não por sexo.” Há, então, uma grande diferença entre amor e sexo. Para ele, não havia nada mais vil do que o desejo sem o amor, justamente porque o mero desejo sexual apaga aquilo que nos separa dos animais: “No dia em que o sujeito perder a infinita complexidade do amor, cairá automaticamente de quatro, para sempre. Sexo como tal, e estritamente sexo, vale para os gatos de telhado e os vira-latas de portão. Ao passo que no homem o sexo é amor. Envergonha-me estar repetindo o óbvio. O homem começou a própria desumanização quando separou o sexo do amor.” Se é possível extrair alguma filosofia da obra de Nelson Rodrigues, ela está não só no amor como essência do ser humano mas também aquilo que provê sentido à existência: “Não há amor que não seja eterno. E os que acabam? Os que acabam não têm nada a ver com amor[…]Não importa que se ame errado: tampouco importa que a vida seja uma flora de equívocos. A simples esperança do amor eterno impede que o homem apodreça à nossa vista. E a mulher falhada, frustrada, morre esperando o amor que não veio.”
Gilberto Freyre escreveu que o escritor-jornalista ou o jornalista-escritor é o que sobrevive ao jornal: ao momento jornalístico. As crônicas de Nelson Rodrigues não são datadas, citam sim figuras e acontecimentos da época, mas sobrevivem ao teste do tempo não só por seu estilo vigoroso e memorável, mas porque tratam moralmente do humano – de como somos feitos e de como continuaremos a ser (se não nos desvirtuarmos por completo).