quinta-feira, 11 de setembro de 2014

UM NOVO ENFOQUE PARA A CORRUPÇÃO: ESTADO X EMPRESAS:QUEM CORROMPE E QUEM É CORROMPIDO?


Assistimos agora a mais um escândalo envolvendo propina paga a políticos e, de novo, por um dos maiores cartéis do Brasil: O das empreiteiras. Elas foram criadas e cresceram vampirizando o Estado principalmente a partir da década de 60 (Construção de Brasília, hidrelétricas, estradas, e aquelas obras faraônicas construídas apenas para lhes dar dinheiro). Inclusive, reza a lenda que uma das maiores, a OAS foi criada e dada ao genro por Antônio Carlos Magalhães e por isso recebeu esse nome que significaria Obrigado Amigo Sogro. O fato é que há um cinturão de cartéis que cerca e vampiriza o Estado, por meio dos políticos que os cartéis elegem. Sim.
Em regra, não se elege um deputado federal com menos de 3 milhões gastos em campanha. Imagine quanto se gasta em Caixa 2(dinheiro de malas) nas campanhas de senador, governador e presidente)... De onde vem esse dinheiro? Dos cartéis. Em algumas eleições o cartel dos bancos contribuía mais (principalmente o Itaú, que hoje é maior com a compra do Unibanco). Nestas eleições quem mais financiou as campanhas foram o cartel das grandes empreiteiras, Andrade Gutierrez, OAS, Odebrecht, Camargo Correa, etc. O líder individual de doações foi o grupo dono da Friboi, no crescente Cartel do Agronegócio. Por que? Porque conseguiu um aporte de 10 bilhões do BNDES no governo Lula/Dilma para se tornar o gigante da carne. Já o Itau contribuiu apenas com as campanhas de Aecio e Marina porque a Receita Federal está lhe cobrando uma dividasinha de 19 bilhões em impostos sonegados resultantes da fusão com Unibanco. Pelo andar da carruagem, talvez ganhe o processo da Receita...
MAS O QUE IMPORTA É ESSE CIRCULO VICIOSO ENTRE POLÍTICOS E CARTEIS VAMPIROS DO ESTADO: O dinheiro dos cartéis elege os políticos e depois eles contratam esses cartéis que superfaturam as obras e negócios com o Estado e aí usa parte desse dinheiro pra eleger seus candidatos nas próximas eleições, e o círculo nunca tem fim...
COMO ACABAR COM ISSO? É FÁCIL MAS É IMPOSSÍVEL! Fácil por que bastaria restringir as campanhas à propaganda e tv paga com dinheiro do fundo partidário, proibindo qualquer outro tipo de campanha que envolva gastos(comícios, viagens, etc.). Impossível porque a maior parte da arrecadação é feita por Caixa 2 (contas no exterior e aquelas malas de dinheiro apreendidas com assessor do PT e com assessor do neto de Mários Covas PSDB), e parte dele não vai pra campanha, vai pro bolso dos candidatos, que se elegerão e no poder não vão querer acabar com o financiamento privado de campanhas, pois terão de financiar seus financiadores para que esses possam refinanciá-los nas próximas eleições. E é por isso que não defendo nenhum candidato, pois sei que ele irá me envergonhar quando eleito...
Outra pergunta é: As maiores empreiteiras do Brasil, envolvidas no Escândalo Petrobras, irão ser declaradas inidôneas e proibidas de serem contratadas pelo Estado, conforme prevê a lei? Nesse caso, quem faria as mega obras? É melhor responder à pergunta do título, ou melhor, não responder (quem corrompe e quem é corrompido: O Estado ou o Setor Cartelizado?). Isso é como o segredo de tostines (vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais) ou perguntar quem nasceu primeiro: a galinha ou o ovo?

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O DESPERTAR DOS SOCIOPATAS

té o início dos anos 2000, o sociopata era apenas o sociopata e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se sociopata era o próprio sociopata e tinha vergonha disso. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a levantar um dedo, ou atirar uma bolinha de papel em alguém. Em 20 anos de redemocratização, nunca um sociopata ousou revelar suas opiniões. Simplesmente, não pensava, vegetava. Acuado pela democracia e aversão à ditadura que assolara o Brasil por 20 anos, o sociopata, andava mudo, de cabeça baixa, se escondendo pelos cantos.E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, no final da década de 80, foi a de uma autoflagelação. Um sociopata arrependido por bater na mulher, berrava, atirando rútilas patadas: — “Eu sou um quadrúpede!”. Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — “Sou um quadrúpede de 28 patas!”. Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido sociopata assumido.
E o sociopata como tal se comportava. E, como todos sociopatas, não podiam emitir opinião, muito menos agir. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite de sensatos podia pensar e agir. A vida política tinha sido reservada aos democratas expressos, que poderia até ser um sociopata travestido, mas era obrigado a fingir que não. Só os democratas ou que se diziam  democratas ousavam o gesto político, uma candidatura, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político.
Por saber-se sociopata, deslizava rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um sensato, um complacente, um piedoso, um compassivo, um benevolente, um solidário, só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o sociopata ousaria emitir e escrever opiniões, além de limites ferozes. No cinema, assistia no máximo um Rambo I, um Chuck Norris.
Vejam bem: — o sociopata se enxergava como tal. Havia plena acomodação entre ele e sua hediondez. E admitia que só os de bom-senso podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O Brasil foi assim, entre 1986 e 2002. Há coisa de dez ou doze anos, um brutamontes de esteróides me dizia humilde: — “Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido, senhor”. Não era queixa, era uma constatação. Meu pobre rapaz! - Dizia eu. Foi talvez o último sociopata  confesso do nosso tempo. Deve-se à imprensa brasileira o formidável despertar dos sociopatas e de toda sua fúria até então contida, a partir de 2002. Jornalistas pagos para inventar personagens sociopatas como Datena, Marcelo Resende, Arnaldo Jabor, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, e agora até os roqueirinhos tupiniquins Lobão e Roger Ultraje, estão ressuscitando e encorajando os sociopatas. Estes descobriram que são maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. E, então, aquele sujeito que, há 20 anos, limitava-se a espumar sua baba raivosa na gravata, impotente, e roía seu ódio , como um vira-lata amedrontado rói seu osso num beco escuro, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente. Agora estufa o peito e berra aos quatro ventos o seu ódio, suas palavras de ordem, seus slogans fascistas, decorados dos trechos de seus mentores.
Está havendo, em toda parte, a explosão triunfal dos sociopatas, já elegeram políticos como Bolsonaro, Feliciano Ramos, Sargento não sei o quê, Major tal, Coronel, Bispo etc, como se vivéssemos ainda na ditadura, regime de governo no qual o sociopata é promovido a herói, chefe, diretor, governador, presidente, além de torturador, é claro. E, certo dia, um sociopata, oriundo de redes sociais, resolveu testar o poder numérico ao vivo: — trepou num caixote e fez um discurso: "Morte aos veados! Pena de morte aos pivetes! Senzala para os negros! Cadeia para vagabundo! Pau-de-Arara para paraíbas!" Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros sociopatas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.
Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os sociopatas faziam platéia para os libertários, os solidários, os humanistas. Hoje, não. Hoje, só há platéia para o sociopata. É preciso ser sociopata indubitável para se ter  atenção alheia, amantes e amigos.
Quanto aos “bons de coração”, os sensíveis, os condolentes, os solidários ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem.  E, de fato, estes explodem por toda parte: são militares, religiosos, professores, sociólogos,  magistrados, cineastas, industriais, servidores públicos, taxistas reacionários. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos truculentos.
E, então, os valores da vida começam a apodrecer: a solidariedade, o amor ao próximo, a compaixão pelos humildes, o respeito às minorias, o direito dos deficientes. Outro dia um bombadão, fechou o carro de uma velhinha e tomou a vaga reservada aos idosos e ainda deu uma rasteira no andador de um velhinho que protestou. Sim, os valores cristãos estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. Os direitos humanos vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão. Vamos fixar apenas a questão do Bolsa Família. A filantropia, a caridade, a solidariedade, a camaradagem entre conterrâneos foi o que possibilitou a vida em comunidade.  Tal sentimento precisa ser preservado senão a nação não dura mais de quinze minutos. No dia em que um grupo de brutamontes linchar um gay, um menor de rua, uma velhinha que foi receber o Bolsa, estuprar coletivamente uma brasileira, ou reunirem-se numa marcha de 100 mil, entitulada hipocritamente de "Marcha com Deus e pela Família" será exatamente o fim.
É o que está acontecendo.