Preliminarmente, uma catástrofe exige, para os seus largos movimentos, exige espaço, exige extensão. Então não esperem uma crônica miúda, que é um gênero próprio para o furto de galinhas. Mil mortes pedem a abundância de Jorge de Lima da “Invenção de Orfeu”. Portanto, saiam desse torpor preguiçoso e egoísta e leiam até o final. Mas vi meu irmão Mário e não vi os rostos e nem conheci meus mil irmãos mortos na tragédia das serras cariocas. As dezenas de Joões, Marias, Carlos, Anas, Josés, etc . O que me perguntoé se esses mil irmãos começaram a morrer antes. E só peço que eles tenham morrido sem perceber nada. Imagino uma morte compassiva, sem tempo para o medo e para o grito. Mas o pior é que sei que muitas crianças berraram, muitas mães gritaram, muitos pais, irmãos... Tudo começou no 11.01.11, uma data mais que cabalística, profética. Naquele dia, naquela noite de terror, enquanto um pedaço da nossa pátria naufragava, milhões de brasileiros assistiam bestializados, em suas poltronas confortáveis ao Big Brother. Enquanto a terra ruía por baixo das rochas e das casas, telespectadores miravam os músculos e nádegas marombadas das fêmeas e machos daquele zoológico humano. Enquanto isso o holocausto pluvial desabava sobre as vidas de milhares de inocentes.. Era a morte genocida e ninguém sabia. Enquanto isso milhões de brasileiros torciam para fulano tirar a camisa e ciclana ficar de biquini, em rompantes eróticos. O que houve, em seguida, foi tremendo. Enquanto histéricos teleguiados corriam para o telefone votar em um ou outro emparedado, paredes, tetos, lajes, pisos, rachavam e desmoronavam em meio a correrias, atropelos, uivos. Meninas e menios eram asfixiados na lama, pais eram destroçados por pedras e ruínas, mães eram violentadas pela tragédia, nossos irmãos brasileiros eram estraçalhados pela avalanche de água, terra, pedras e árvores. Muitas vítimas também assistiam ao Big Brother. Pedro Bial era a morte. Pedro Bial é a morte e anuncia os comerciais enquanto pedras se desprendem, casas são levadas de roldão, corpos infantis são partidos em pedaços, gargantas e pulmões entupidos de lama, cabeças são esmagadas, braços, coxas, seios... Muitos berraram em pânico — “Corre, que a casa está caindo!”. Muitos correram. , enquanto o mundo desabava. Mães ouviam o grito de seus filhos e nada podiam fazer. Crianças ouviam o grito de seus pais e nada podiam fazer. Gritos sem dono, desgarrados, perdidos, vararam a madrugada em meio à tempestade e lágrimas. Muitos telefonaram no meio da noite e não era para ligar para o Big Brother. Era para dar a notícia fatal a amigos e familiares. Telefones não pararam de tocar simultaneamente na casas de desesperados e na Central de Atendimento da Globo. Crianças encharcadas e machucadas tremiam de medo e frio. Ambulâncias berravam seu grito giratório e luminoso dentro da noite aterrorizante. Os primeiros corpos vivos, mutilados, quase mortos e mortos davam entrada nos hospitais sem condições de atender a multidão de feridos. Pais e parentes faziam uma vigília de lama, pedra e vento. Pais possessos de pavor só pensavam em seus filhos, filhos em pânico só queriam seus pais e irmãos desaparecidos. No meio da madrugada soterrada, pais se debruçavam sobre a lama procurando como um louco toda a família que não conseguira sair. Alguns, quem sabe, tenham se matado ali mesmo pois sem o cônjuge, os filhos, sem toda a família não sobreviveriam. E para que viver depois disso? Pais amorosos, mães carinhosas, filhos de estruturas doces e frágeis, avós trêmulos de amor, como fanáticos. No outro dia, veio a notícia: A mesma mídia que entorpecia a todos com a superficialidade e bestialidade de seus programas, agora, como uma hiena carniceira, usava a tragédia para inundar as telas em busca de audiência. Pais, filhos, irmãos, parentes e amigos ainda imaginavam seus pais, filhos, irmãos, parentes e amigos ainda vivos. Mas, em breve encontrariam os seus, mortos, e não tardaria a raiar para eles ou a estrela dos loucos ou a estrela dos suicidas. O espantoso é que, desde o Grande Desabamento, eu me encontro a toda hora, com minha infância. No tempo em que havia pactos de morte entre namorados, entre amados. Eis o que eu queria dizer: — vem, de minha infância, o deslumbramento por todos os que se juntam para morrer. O que houve, ainda que involuntário, funcionou um pacto coletivo de morte. E a multidão de mil irmãos, desencarnou no mesmo sofrimento, no mesmo pânico, da mesma forma, todos de mãos dadas. Cada um de nós morre só, tão só, tão sem ninguém. E esses mil seres humanos parecem unidos numa morte consentida e desejada. Sim, como os namorados de velhas gerações. Mas eu falo em “irmão” e não é bem a verdade. Ninguém é mais irmão de ninguém, nem os literalmente irmãos. A morte alheia não nos fere mais, e nem a carne e nem a alma, se é que ainda a possuímos. Nos dias seguintes continuaram achando corpos. Graças, graças, iam ser enterrados juntos, como irmãos. Foram enterrados sem coroas de flores, sem missa e culto, sem uma oração, e às vezes sem nem o nome que carregaram nessa vida. Houve um instante em que me deu um ódio negro e cego contra a mídia, que transmitia aquilo em meio a anúncios eróticos de cerveja, coca-cola, automóveis e outras bugigangas. A dor e a tragédia não mereciam isso. Enquanto as centenas de caixões vão chegando, penso que há entre mim e os meus contemporâneos não sei quantas coisas entrelaçadas. Daqui no máximo 70, ointenta anos, todos nós, vivos hoje, estaremos mortos. Naquele momento, descobri que não se deve adiar uma palavra, um sorriso, um olhar, uma carícia. E como me doí não poder dizer a todos tudo o que sinto, não ter feito as confissões extremas. Eu percebia, ali, que nós olhamos tão pouco as pessoas amadas. Quantas palavras calei com pudor de ser meigo, vergonha de parecer piegas? Agora mesmo eu não chorava como queria. Meu Deus, por que havemos de sofrer como um náufrago numa ilha? Eu queria falar, falar sobre meus irmãos. Mas sei pouco sobre eles. Só que tiveram uma morte coletiva, trágica e um enterro coletivo e humilde. Tento imaginar aquelas pessoas, suas rotinas, seus pequenos dramas e amores. Havia gente boa, generosa, gente simples ou vaidosa, gente honesta outros nem tanto. Em um grupo de mil pessoas há todos os tipos humanos existentes. Depois daqueles dias o Big Brother continuou, a vida continuou como se nada tivesse acontecido. Entupido de saliva, ralo-me de uma ira homicida e impotente. Queria gritar que a vida deveria mudar depois daquilo! Que era uma oportunidade para mudar! Que devíamos parar, repensá-la e começar tudo de novo. Enxergar como somos frágeis, e como estamos no mesmo barco, na mesma casa, que um dia vai naufragar ou desabar... Daqui a 70, 80 anos, ou numa noite, como a da tragédia. E vão chegando os últimos caixões, enquanto o Big Brother vai chegando ao fim e se aproxima o carnaval, a lavagem cerebral coletiva, a histeria coletiva, e é disso que vou tratar mais adiante... E eis que, menos de um mês depois no mesmo Estado da Tragédia, na mesma Pátria da Tragédia: É Carnaval!!! Mas mesmo, uma semana depois da tragédia, as telas da mídia que a cobriu, promovia, divulgava, incentiva o povo daquele mesmo estado ao Carnaval próximo, ao desbunde histérico, ao festejo frenético e coletivo. Onde está a solidariedade?! Onde está o respeito?! Onde está a compaixão pelos mil mortos?! Onde está o espírito cristão?! Eles mereciam, eles precisavam, de uma compaixão unânime e total. Ou será que nós também estamos mortos? Falo em mil mortos e tenho uma brusca vergonha de ter, por um momento, esquecido as famílias e amigos dos que morreram. Caminho pelas ruas do Rio, uma semana após ao Holocausto Carioca, e ouço pessoas comentarem sobre o carnaval. Desatinado, começo a perguntar: — “Mas como?! Já se esqueceram das chuvas? Não avisaram essas pessoas da tragédia?”. Ligo a tevê e vejo mulatas praticamente nuas na tela, como escravas num leilão de escravos do século dezoito. “Mas e os temporais e as tempestades e as tormentas e os mil cadáveres?!” Mudo de canal e a mídia é toda carnaval! No vídeo, imagens eróticas e coloridas, numa repetição obsessiva, ornamental. Ainda por cima, 24 horas por dia, enquanto o povo telespectador, babando como um fauno de pés de bode, pasta aquelas imagens sedento de perversão sexual. Se pudessem mastigariam as imagens, devorariam aquela paisagem. Essa orgia televisiva foi uma agressão, um soco nos meus olhos. Eu não podia entender como, em plena tragédia, alguém tivesse a pouca-vergonha, o descaramento e a desfaçatez de promover o carnaval no Rio. Desligo a tevê e jogo nela um pé de sapato, como um possesso, um muçulmano revoltado. Saio gritando pela casa: “E as chuvas?! E a tragédia?!”. Até que, de repente, paro e pergunto, de mim para mim: — “Mas que é isso, meu Deus, que é isso?”. As coisas começaram a ficar bem claras. O povo fora colhido por um surto de pusilanimidade feroz. Era o medo puro, o medo abjeto de reconhecer a condição humana, ou seja, de reconhecer a dor, ou seja, de sofrer. Porque o que importa é fingir que a morte não existe, o sofrimento não existe, a tragédia não existe, a doença não existe, a velhice não existe, o que importa é fingir e gozar enquanto se está vivo! Minha vida está agora dividida em dois tempos: — “antes das chuvas” e “depois das chuvas”. É um corte tão fundo, e tão violento, e tão sem piedade. Quando digo “antes das chuvas” estou falando de um outro mundo, de outro idioma, de outra encarnação e, mesmo, de outras chuvas. Tanta coisa morreu com o desabamento. Inclusive eu próprio. Não pensem que não morri também. Como poderia eu brotar, intacto, da catástrofe? Naquele domingo, o povo estava em casa, longe e protegido ouvindo e vendo Pedro Bial contaminar o Brasil inteiro com a sua boçalidade ululante. Agora me lembro: — não era somente Pedro Bial. Também se preocupavam com campeonato estadual e a chegada o Ronaldinho Gaúcho. Enquanto as Serras Cariocas desabavam e tremiam de clarões e trovões... Enquanto crianças morriam ou tremiam de medo e frio, aqueles que estavam protegidos em suas casas, no fundo, no fundo, achavam uma graça infinita nas águas que caíam e na tragédia que era anunciada nas tevês. Muitos sentiam orgulho por estarem assistindo aquilo: A maior tragédia natural do Brasil! Enquanto o povo se divertia com o Big Brother, crianças, mãe e pais estava morrendo. Pois algo de mim também foi sepultado em lama, pedra e vento. Sou outro “depois das chuvas”. E me admira que eu tenha mudado e os outros, não. As pessoas continuam indo à praia; meninas tomam coca-cola de biquíni. Uma catástrofe eufórica como a das Serras realmente não influiu na cor de uma gravata. O homem esquece antes de sofrer. É isso que eu queria dizer. Estamos programados, corrompidos, para esquecer antes de sofrer. Agora mesmo, tenho diante de mim um recorte de jornal. É uma pequena nota sobre o número de mortos em meio a uma avalanche de notícias sobre o Carnaval. Já vasculhei o papel impresso, já o apalpei, já o farejei, já o virei de pernas para o ar. E o papel não diz mais nada sobre a tragédia. Mas como? Não foi nem a um mês?! Ainda estão desenterrando corpos sepultados e esculpidos na lama! O nosso jornal nacional já não fala mais nada? E as falsas campanhas de solidariedade para dar audiência?! Aí está dito tudo: — nada! Aliás, tudo, na mídia, está errado. Como eu disse antes, uma catástrofe exige, para os seus largos movimentos, exige espaço, exige extensão. Exige que se consiga caracterizar a verdadeira dimensão e profundidade da tragédia para que repercuta em nossas vidas. Ora, o Carnaval sempre vem para nos fazer esquecer, vem para nos entorpecer, vem para nos iludir, vem para desviar nossa atenção do que é importante na vida. E a mídia, que já esqueceu os mil corpos cravados na lama, a mídia com seu colorido de Casino de Las Vegas, e a sua aridez de três desertos, existe para nos distrair, nos iludir, nos desunir, nos tornar frios e indiferentes, para nos fazer esquecer que somos humanos, que somos irmãos.. |