segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A MENINA SEM CHINELOS

Começo lembrando que não há ser mais pungente e, repito, não há ser mais plangente do que o brasileiro premiado. O inglês, não, nem o francês, muito menos o americano. Um ou outro recebe qualquer prêmio com modéstia e tédio. Alguns até o recusam até o prêmio Nobel... 

E que faria o brasileiro? Sim, qualquer um dos 200 milhões de brasileiros que, de repente, recebesse um telegrama assim: — "Papaste o prêmio nobel, seu largo!!" - imediatamente pularia no mar, de galochas e tudo, atravessaria a nado o atlântico, o canal da mancha, o mar Báltico até chegar a Estocolmo, ofegante de olhos arregalados e lábio trêmulo, pra pegar seu prêmio... E depois seria carregado nos braços pelos outros 199.999.999 de brasileiros, cada um proclamando:
- É meu amigo íntimo, é meu amigo íntimo!!! Foi criado comigo... Mamamos juntos na mesma ama de leite... (Tal é o grau de identificação com um patrício campeão mundial)... Mas que mistério é esse por trás de nosso comportamento? Daqui a pouco revelo...

Todo brasileiro ficou sabendo da história da judoca que não tinha chinelos na infância. Todo brasileiro se identificou e por isso se emocionou com ela...

Confesso que não entendo por que. O Brasil não tem nenhum mérito pelo sucesso da campeã. Ao contrário, ao contrário e já já explico por que... 

Os Estados Unidos tem uma indústria de produção em massa de medalhistas. Pegam milhões de moleques ainda bebês, jogam dentro da máquina, e saem centenas de medalhistas em menos de uma década. Se nascer alguém naquele país com algum potencial pra algum esporte, eles o descobrem, o capturam e o levam para treinar. Mesmo contra a vontade do guri:

" - Eu não quero ser campeão!!!" - Esperneia o meninote.
" - Vai sim! Como não, como não, ora bolas?!" - Grita o Tio Sam, arrastando-o pelas orelhas.

Então os americanos podem ter orgulho de seus medalhistas, porque, nesse caso, o mérito é de uma instituição americana sustentada financeiramente pelos americanos.

No Brasil, dá-se o contrário, o mérito é totalmente individual, e nossos campeões para chegar a sê-lo, ao invés de ajuda, tem de lutar contra o Brasil e contra os brasileiros.

Vejamos o exemplo dessa menina. O Brasil, enquanto conjunto instituições e pessoas, jogou-lhe na favela ao nascer, descalça e mal alimentada. A moleca já nasceu levando um ipon, e teve de erguer-se sozinha dando botinadas a torto e a direito. Sabe-se lá como chegou lá...

Quanto a essa nossa misteriosa identificação com o nosso campeão antípoda,  me parece bem transparente. Cada um de nós carrega um potencial de santas humilhações hereditárias. Cada geração transmite à seguinte todas as suas frustrações e misérias. No fim de certo tempo, o brasileiro tornou-se um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: — não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima. Se não me entenderam, paciência. E tudo nos assombra. 

Se uma vaca brasileira de um brasileiro pobre for campeã mundial de leite, nós nos identificaremos com ela no ato! Lembrarão inclusive que temos o hábito de mastigar um capinzinho no canto da boca, quando achamos um... E um simples “bom-dia” de um estranho já nos gratifica. Se for gringo, então... Nunca me esqueço do meu trabalho. 

No serviço público todo mundo tem antipatia, ressentimentos de chefias, principalmente do chefe maior... Quanto mais poderoso, mais inacessível, mais distante, mais antipatia nutrimos...  Mas se um dia o presidente, um escroque perfumadíssimo, mais cheiroso do que puta nova em puteiro, passa pelo  funcionário que mais o odeia e lhe aperta a mão e sorri, o servidor será-lhe eternamente grato e passará a defendê-lo em todas as discussões...  

Mas voltando à vaca fria, aquela premiada... Ah, como o brasileiro precisa ter um gênio à mão! Sim, para apalpá-lo, farejá-lo. A simples existência de um gênio patrício já nos permite um mínimo de auto-estima. Mas não pode ser qualquer um. Tem de ter sofrido na vida... Tem de ter sido humilhado e pobre, como um garrincha, aleijado e acoolatra, para termos a identificação integral na nossa memória atávica humilhadíssima... 

Se for um Robert Scheidt, que já nasceu rico e  campeão não serve. Se for jogadores de volei, vindos da classe média, que já ganharam caminhões de medalhas e nos dão o título de País do Volei, não serve... 

Recentemente, fomos bicampeões mundiais de clube nesse esporte. Alguém viu entrevistas com esses heróis no Jornal Nacional? Alguém viu eles na Fátima Bernardes? Não. E por que? Por que eles tinham tenis pra calçar na infância, e puderam frequentaram colégios, onde por acaso tinham quadras de volei... 

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