sexta-feira, 25 de novembro de 2011

70 ANOS DO JOVEM JOHN


Não me perguntem como, mas fiquei sabendo que John Lennon fez 70 anos outro dia. Não sei se saiu no jornalismo brasileiro alguma reportagem, porque não acompanho muito o jornalismo, simplesmente porque não existe jornalismo sério no Brasil, e sim jornais e revistas humorísticos. E só não percebe isso quem não tem senso de humor, senso crítico, bom senso, ou qualquer outro tipo de senso... Mas não é disso que eu queria falar...

A primeira vez que ouvi falar em John Lennon foi no dia em que ele morreu. Foi em 80 e eu tinha sete anos. Lembro que um primo de uns vinte anos entrou pela cozinha e de olhos arregalados deu a notícia à minha mãe, que também deve ter arregalados os olhos.
 Mas como eu posso me lembrar disso? Eu não morava em Nova Iorque, ao contrário, morava em uma pequena e pacata cidadezinha do Vale do Jequitinhonha.
Bem, eu devo me lembrar porque aquela notícia deve ter sido um alvoroço mesmo entre os jovens provincianos da minha cidade. John Lennon era o cara... Tinha sido líder de duas gerações de jovens (60 e 70) e prometia ainda ser “O Jovem” dos anos 80, mesmo na casa dos 40.

A segunda vez que Lennon chamou minha atenção foi quando ouvi God. Eu tinha 18 anos e sabia pouquíssimas palavras em inglês, mas eu sabia o que significava “I dont believe”. E fiquei escutando aquele cara ao piano dizendo: Eu não acredito em Ritlar(Hitler), em Disus (Jesus), Kennedy, Elvis, Zimmerman (que vim a saber depois ser Bob Dilan), Beatles e mais uns caras que eu não sabia quem eram.

Pra mim aquilo foi um choque: Como um cara que todo mundo dizia ser legal podia não acreditar em Deus. Tentei achar uma solução para aquilo e conciliar aquele conflito em mim. Então fiz uma versão para a música, mesmo sem saber inglês.

Bom, God e “Ai dont bilive” tavam garantido, e o resto foi por aproximação da sonoridade das palavras. Assim, “God is a concept” virou “Deus não encontrei”, “By which we measure” virou “em nenhuma igreja”; “Our pain” virou “ Oh, eu sei”. “I'll say it again” virou “não creia e veja”. “I don't believe in magic”, ironicamente converteu-se em “Eu não creio em Imagine” (a canção mais famosa de Lennon). “I don't believe in Bible”, até que ficou parecida pois eu entendia que ele cantava “Eu não creio em papas”. Aí substituí alguns como Kennedy por similares nacionais e foi indo. “...Gita” virou “Eu não creio em guitarras” e como era 1990, sobrou para Collor e “Eu não creio na Globo” e é claro, para o próprio coitado do “Eu não creio em Lennon”.

“I just believe in me Yoko and me” virou “Eu só acredito em você e em mim”. And that's reality, em “você que está aqui”. Pois é, “The dream is over” virou “Deus morreu”; “Yesterday” em “Ontem às seis”. E:
“I was the dreamweaver,
But now I'm reborn.
I was the walrus,
But now I'm John.
And so dear friends,
You just have to carry on
The dream is over.”

Virou:

“Estamos sós na terra
e não existe céu.
Estamos sós na terra
e Deus morreu.
Vem, me dê a sua mão
porque somos irmãos
e Deus morreu.”

Enfim, foi assim que consegui conciliar as coisas na minha cabecinha de adolescente, pois percebi que aquela canção era um canto de solidariedade e consideração a quem está próximo. Entendi que Lennon queria dizer: “Escute meu chapa, deixe os ídolos, os famosos, as teorias, as coisas invisíveis, esotéricas, ideológicas e fantasiosas de lado, acredite e dê valor quem está na sua frente e é de carne e osso como você. Estamos no mesmo barco, e expostos sob a mesma tragédia da velhice e da morte, e daqui a alguns anos todos teremos naufragado e estaremos submersos nas águas do tempo. Vamos seguir o mesmo caminho de mãos dadas.” O Deus que ele criticava era o Deus que isolava, alienava e separava as pessoas.

Depois peguei aquela versão e tentei que o único amigo que sabia tocar violão, tocasse aquilo pra gente cantar. Ele não foi nada solidário... O cara achava que Lennon era o própria capeta e aquilo era coisa do Demo, ou seja, o cara era fanático religioso e a partir dali só tocaria para “a glória do senhor”. E acabou seguindo essa carreira mesmo... O que eu não condeno, pois pelo menos ele está fazendo algo em que acredita, por um ideal e não para encher o rabo de dinheiro. Mas o fato é que nossa parceria morreu prematura... Mas pelo menos eu tentei ser John Lennon...

Saindo da minha relação particular com o ex-Beatle, o motivo de eu estar escrevendo essas coisas é porque considero a morte dele um divisor de águas para a juventude. No final da década de 70 já havia um movimento forte, natural ou não, de se despolitizar e desmobilizar a juventude. Era os Tempos da Brilhantina nos Embalos de Sábado à Noite nas discotecas. Talvez todo mundo já estivesse de saco cheio de política e ativismo.

Mas Lennon era um chato e resistia. Parecia querer ensinar o que era certo e errado, como viver, e até como fazer amor e amar. Tudo bem, até 73 tinha a Guerra do Vietnã e depois Lennon sofreu perseguição do governo Nixon e do FBI durante quatro anos. Queriam expulsá-lo dos Estados Unidos de qualquer jeito. O cara era um mala e pregava insistentemente a paz num país que tinha obsessão por matar... Lennon venceu o processo contra a deportação e Nixon renunciou naquele famoso escândalo de Watergate. Mas o ex-Beatle continuava sua pregação insistente de “Paz e Amor” já no final da década de 70, quando já nem existiam mais hippies, a juventude estava em outra e só queria curtir o som dos Bee-Gees, Abba, etc.

Mas Lennon, com o seu uniforme de soldado furado de balas, tinha um exército de seguidores: O cara organizava um protesto e arrastava multidões atrás de si.
Aí uma noite, como cantou Beto Guedes “uma canalha matou um rei em menos de um segundo”. Um filhote do TOCAM (trastorno obsessivo compulsivo americano em matar) matou o rei. O assassino americano disse que matou porque Lennon era um hipócrita. Talvez tivesse um pouco de razão: Lennon pregava a paz entre os homens e não conseguia fazer as pazes com Paul Mcartney. Mas não precisava matar o cara, né ô...Todo mundo é um pouco hipócrita.

De lá pra cá, que eu saiba, ninguém tentou ser John Lennon. O movimento hippie foi trocado pelo movimento yuppie, que para mim é a busca do dinheiro por si, em si e para si. Alguns dizem que se Lennon estivesse vivo teria virado Paul Mcartney: Fazendo shows com Michael Jackson, enchendo a burra de grana, casando com modelos de passarela trinta anos mais jovem.

Acho que não, porque os problemas contra os quais Lennon vociferava não foram resolvidos. Ao contrário, fizeram guerras mais absurdas e mais injusticáveis que a do Vietnã... Papa Bush inventou uma, Baby Bush inventou outra, plantando inclusive provas falsas para começar a guerra. Por muito menos Nixon renunciou. Bush foi reeleito... E os israelenses pararam de responder com bombas os ataques de pedras dos palestinos naquele velho campo de concentração? E a China, esse monstro criado e alimentado pelo consumismo mundial, com sua milenar tradição em, de uma hora pra outra, tentar dominar o planeta à força? E o holocausto africano? E a fome, as injustiças sociais foram resolvidas? Não, até se agravaram em certos aspectos. A paz e o amor reinam no mundo? Então porque o movimento está parado?

A juventude trocou os grandes ideais por pequenos projetos egocêntricos. Antes idealizavam um mundo bonito, cheio de amor e paz. Hoje idealizam um apartamento bonito, cheio de sexo e eletroeletrônicos, ganhando o máximo com o mínimo de esforço possível. Nos tornamos mais indiferentes, egoístas, desonestos, cretinos, enfim.

E quem pensa que o chato do Lennon só falava de problemas gerais, políticos e externos, engana-se. Acho até que a maioria das letras do cara, falava de conflitos individuais, experiências vividas, dramas pessoais, relações amorosas, coisas afetas a qualquer ser-humano. Muito antes da enxurrada de livros de auto-ajuda dos anos 90 pra frente, ele já dizia: “Ninguém pode te ajudar, ninguém pode te curar, a não ser você mesmo”. Na canção “Comentário a Respeito de John”, o nosso Belchior homenageia aquele John: “Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho, deixem que eu decida a minha vida. Não preciso que me digam de que lado nasce o sol, porque bate lá meu coração. “SONHO” escrevo em letras grandes de novo pelos muros do país... John, o tempo andou mexendo com a gente, sim...”.

E como mexeu. A verdade é que o último SONHO que alguém escreveu em um muro do país, já se apagou há muito tempo, mas aquele muro está cada vez mais firme e alto, nos separando...

Como eu disse, Lennon conseguia juntar milhares de jovens em um protesto. Hoje os amigos mal conseguem se juntar em três ou quatro para tomar um chope.A juventude ficou órfã de John Lennon em 1980. Por que Deus morreu, por que o sonho acabou? Não.
Porque o jovem morreu.

Hoje se passa da infância para a idade adulta sem sermos jovens. Hoje qualquer garoto de 18 anos “tá em casa, guardado por Deus contando seus metais”, tentando ganhar o máximo de dinheiro com o menor esforço possível para comprar carros descartáveis, sexo descartável, amor descartável, amizades descartáveis, etc. Hoje se passa dos 12 para os 30 anos e diz a máxima: “não confie em ninguém com mais de 30.” É quando o Homus-idealista se torna o Homus-financista, assim como os comunistas se tornam economistas, quando ganham dinheiro.

A juventude faz falta à humanidade, assim como Lennon faz falta à juventude. Ele era chato mas fundamental. E o terrível é que ninguém tentou, nem tenta fazer o papel de Lennon. Não como músico genial, mas pelo menos como alguém que utilizasse a fama para algo útil e importante para todos.

No Brasil, depois do nosso Woodstock tupiniquim na década de 70, nossos principais movimentos juvenis foram: Lambada, Sertanojo, Axé, Pagode, Emo, etc. Esses arrastaram e arrastam milhões dos nossos jovens, o futuro da nossa nação. E dá-lhe Tiriricas no Congresso, e o que é pior, Sarneys, Collors e um bando de velhos corruptos, tapados e burros. Enquanto a nossa juventude ri e aplaude como um chimpanzé. É isso aí: 99,9% de diversão nas almas e zero preocupação, afinal de contas, nosso país é uma maravilha, não existe mais violências nem injustiças...

Então é isso que eu quero dizer: Precisamos de um Lennon na música, um Lennon na juventude, um Lennon nos EUA, um Lennon no Brasil, um Lennon no mundo, urgentemente. Enquanto ele não chega, vamos ouvir e tentar traduzir as letras do velho Lennon de 70 anos...

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