terça-feira, 1 de novembro de 2011

GRAÇAS A DOM ENZO!


Dom Enzo é daquelas pessoas, que se cruza seu caminho, muda-o para sempre. E digo "é" no presente, porque Dom Enzo sempre se fará presente, sempre estará presente, senão nas lembranças de quem o conheceu, mas nas nossas consciências que ele despertou um dia e modificou para sempre. 

E para mim, aos 14 anos, Dom Enzo foi um "despertar" em vários aspectos. Menino araçuiense que era, vindo ainda de um mundinho de brincadeiras-escola-televisão, Dom Enzo me apresentou vários outros mundos e ampliou minha percepção da vida: Foi meu Mestre e me iniciou na teologia, metafísica, política, em raciocínios mais profundos, mas principalmente, no amor ao próximo e na solidariedade ativa a  quem precisa. Nos retiros espirituais que promovia, reafirmei minha personalidade introspectiva, onde descobri que eu podia encontrar Deus mais facilmente de maneira solitária, contemplativa, meditativa e filosófica. Mas que para ajudar o próximo, eu tinha de deixar de ser egocêntrico, ser prático, técnico, pró-ativo e criativo.  Digo que Dom Enzo me deu régua e compasso espirituais, para que eu pudesse traçar meu próprio caminho na vida, sem me perder ou me deixar levar por hipocrisias demagógicas, modismos religiosos,  ideologias sectárias, fanatismos oportunistas, mesmo nos momentos de maior sofrimento, desespero e solidão.

E eu pude desfrutar disso, justamente no momento de transição do menino para o homem, no momento em que eu mais precisava disso, no momento em que eu mais precisei de um pai, quando meu pai mais me faltou por causa de uma doença. Dom Enzo proporciou a mim e a tantos outros uma alternativa de Ser, um exemplo de homem que poderíamos ser no futuro, um exemplo a perseguir. 

E talvez seja esse exemplo que eu persiga até hoje, consciente ou inconscientemente. Essa minha busca incessante pela sabedoria, mas ao mesmo tempo, mantendo o espírito jovem, essa minha eterna indignação social, sem dúvida é coisa de Dom Enzo, é graça de Dom Enzo. 

É graça do Doutor poliglota de cabelos brancos e de batina que andava de moto e ainda por cima, soltava as mãos. É graça do Bispo cheio de responsabilidades e de preocupações sociais, mas brincalhão e sorridente. 

São árquetipos e ideais que instintivamente venho perseguindo vida afora. E se hoje trabalho num Órgão, onde tento fazer minha parte na luta contra a corrupção no nosso país, e se tantos outros alunos e amigos seguiram aqueles ideais, isso também foi graças a Dom Enzo. Essa sementinha da busca da justiça social foi plantada por ele em nossas consciências, lá nos tempos da Hagrope, assim como plantou em nossos corações o amor pelos humildes e a valorização do nosso povo do Vale. E isso é indestrutível, não morrerá nunca, por isso Dom Enzo continuará vivendo em quem o conheceu. 

Lembro de que numa palestra de quatro horas, onde o Doutor em matemática, conseguia nos provar a existência de Deus por meio desta ciência, da física e principalmente da emoção, cheguei ao fim daquela lição profunda com os olhos cheios de lágrimas e decidido a entrar para o sacerdócio. Lembro que fui celibatário dos 14 aos 18 anos, não por exigência, mas como consequência do que eu acreditava, o amor e respeito ao próximo, e o que  podia ser uma carga pesada para um  adolescente, para mim foi leve e transcendental, me trazendo grande felicidade. Então, espiritualmente, eu estava encaminhado para ser um instrumento de Deus na Terra e só não pude fazê-lo por conta da situação do meu pai e da minha família, que requeria que eu trabalhasse para ajudar sustentá-la. Mas de certa maneira, sempre procurei exercer essa vocação, esse livre sacerdócio, por meio dos "sermões" que escrevo, sem solicitar ou induzir ninguém a lê-los. Enfim...


Nesse momento, também não poderia deixar de lembrar daquele que, tantas vezes na Hagrope e nas nossas vidas, foi os braços, os olhos, a voz e a força de Dom Enzo: O saudoso amigo João Pizzini, com quem ele foi se reencontrar...

Dom Enzo dizia "não pergunte o que farei com a matemática. Antes espere e verá, o que a matemática fará de você". Hoje eu diria: Esperei, vivi e vejo o que Dom Enzo fez de mim, fez de nós, que tivemos o privilégio único de desfrutar de sua companhia, sabedoria e do seu amor. Fez de nós seres mais humanos, mais inteligentes, mais dignos, mais justos, mais profundos,  mais livres, mais esperançosos e menos materialistas. 

Por isso que eu digo: Graças a Dom Enzo! Que ele viva sempre em nós!

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