Visualizem alguns ídolos da população: Fausto Silva, Suzana Vieira, Hebe Camargo, Zorra Total, jogadores, times de futebol... Acho que foi Bernard Shaw quem escreveu que o "Ocidente não consegue produzir adultos ou que os nossos velhos morrem com um taco de golfe na mão". Eu diria com um taco de sinuca, ou vendo futebol, nos dias de hoje... Mário Quintana disse, entre doce e irônico, que a mulher não faz trinta anos, faz quinze anos duas vezes. Talvez três, quatro, cinco...
Observe que grande parte da nossa economia é movimentada por brinquedos para gente grande... O mundo concreto é construído por uma indústria da fantasia. Mas uma fantasia restritiva que só inclui carrões de brinquedo, roupas de boneca para mulheres, casas de bonecas gigantes (shoopings), mocinhos e bandidos em embalagem moderna nos seriados e novelas, capitão américa, homem-aranha, hulck, gibis na tela dos cinemas, lotados por adultos, que talvez busquem viver um mundo de alegria imediata e colorido, de beleza fácil como nos quartos de bebês. Quase ninguém hoje tem a maturidade de ouvir uma sinfonia de uma hora e a paciência de esperar a sua beleza se revelar.
Enquanto a riqueza do mundo circula por esse mundo de brinquedos, milhares de crianças africanas estão morrendo de sede e fome, todo mês, nos campos de refugiados da Somália e Kenia, sem nenhum brinquedo nas mãos... O mês passado foram dez mil, incluindo adultos.
Talvez outra característica do adolescente e adultoscente seja a foedufobia, a aversão pelo feio, pelas coisas, pessoas feias, velhas, decrépitas, doentes, logo, feias; enfim, a aversão por parte da vida real. Bem, há artistas que conseguem enriquecer a fantasia humana, e jogar uma aura de transcendência até numa coxinha de boteco, paus d´água, numa cabra vadia de um terreno baldio, como fez Nelson Rodrigues; ver na madrugada "a flor da noite" num carrinho de pipoca, como Caymmi; pintar retirantes maltrapilhos, como Portinari, etc, ou seja, revelar o charme, a poesia, a profundidade, a transcendência, a beleza desse mundo concreto desprezado ou considerado feio pela maioria.
A insegurança compensada por exaltações narcisistas é outra característica do adolescente, o que pode ser exemplificado tanto pelo jovem rechaçado no baile que fica sentado denunciando, apontando defeitos nos que dançam, quanto pelo político brasileiro que fica 20 anos criticando, apontando defeitos e corrupções nos que tem o poder e quando ele finalmente chega ao poder comete os mesmos vícios. No final das contas, ele só queria o poder pelo poder, ganhar por ganhar, como num video-game.
Giacomo Leopardi escreveu "Contudo, tenho pouco apreço por aquela poesia que, depois de lida e meditada, não deixa no espírito do leitor um sentimento a tal ponto nobre que, por meia hora, o impeça de admitir um pensamento vil e de cometer uma ação indigna.”
Se ele era um poeta adolescente, talvez a poesia, a arte adulta ou ideal deva deixar esse mesmo sentimento nobre nas pessoas, mas que dure não meia hora, nem um dia ou um ano, e sim a vida inteira. Um sentimento nobre que, verbi gratia, solucione para sempre o holocausto, o genocídio do povo africano. Mas para isso é preciso que haja adultos maduros no mundo...

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