segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O I-AMIGO DE JOBS...

Conta-se que Jobs, no início da carreira, tendo dificuldades de encontrar interessados em seu microcomputador, visitou o Butão, pequeno país budista da Ásia, onde tentou convencer o rei de lá a investir na novidade.
                                 
E disse Jobs:

- Então, Majestade, utilizando meu microcomputador ao invés de máquinas de escrever e calculadoras,  um serviço burocrático que era feito por 1 funcionário durante um mês, poderá ser feito em um único dia...

Então, perguntou-lhe serenamente o Rei:

- E o que ele fará nos vinte e nove dias  que sobrarem?

Steve Jobs ficou um pouco em silêncio e respondeu:

- Bem, durante o resto do mês ele poderá fazer o trabalho de 10 funcionários...

 Novamente, perguntou-lhe serenamente o Rei:

- E o que farão e o que eu farei com aqueles 10 funcionários?

- Bem, poderá demiti-los, economizando 10 salários  mensais para os seus cofres...

O fato é que, à época, o Rei comprou os computadores e  Steve Jobs voltou do Butão convertido ao budismo.

Já eu, quando vi o Jornal Nacional (que nunca falara praticamente nada da Apple ou de Jobs) dedicar metade do seu tempo a endeusar o falecido, tentando provocar uma comoção nacional, senti minha boca salivar e passei a ponta da língua na ponta dos meus  caninos... Sim, porque sou um caçador de unanimidades, um iconoclasta nos momentos vagos (destruidor de ídolos). Então  fiquei matutando sobre o Bezerro de Ouro da rodada...

Proponho analisarmos os impactos das invenções e investidas de Jobs sob os aspectos comportamentais e econômicos.

No econômico, já tivemos uma prévia na pequena historinha acima. No mercado privado, utilizando um microcomputador e seus sistemas, um funcionário produz ene vezes mais do que um antigo produzia com uma máquina de escrever e uma calculadora; e faz o mesmo serviço que demandava ene funcionários antes dos computadores.  Os impactos dessa revolução no nível de emprego, deixo aos economistas. Mas a princípio e ao final, quem lucrou com isso foram as empresas, que com muito mais produtividade e menores custos, batem ano pós ano recordes históricos de lucros.

O aspecto comportamental é o que mais me interessa. A revolução da informação teoricamente traria mais facilidades à comunicação humana e ao conhecimento... O curioso é que, na prática, está ocorrendo o contrário. O tipo de conteúdo  acessado pela grande maioria dos usuários da Internet é de baixíssima qualidade, e isso é feito em detrimento da cultura clássica consolidada (boa literatura, boa ética, conhecimentos relevantes).
Quanto à comunicação, vemos, hoje, famílias, em que o pai chega em casa e corre para seu micro, a esposa corre pra seu notebook, e os filhos ficam entregues aos games. Vemos situações ridículas em lugares, antes de integração social como os bares,  onde o cidadão vai tomar um choop com o seu laptop e mais ninguém. E outras, em que um colega de trabalho fica mudo o expediente todo, mas conectado o tempo todo na Internet; sem esquecer os cidadãos isolados em seus apartamentos, que nunca cumprimentam seus vizinhos, mas conversam com o mundo todo pelas redes sociais virtuais. Enfim, os seres humanos estão cada dia mais afastados uns dos outros, fisicamente e emocionalmente,  conectados e concentrados em coisas distantes, vagas, eletrônicas. Por isso, talvez eles estejam mais egoístas, mais indiferentes, menos solidários, mais alienados, posto que não vivem a realidade nua e crua, não convivem com pessoas de verdade. Acho que devo ser antigo, pois prefiro a conversa tête a tête, o olho no olho, a risada compartilhada, o abraço, o aperto de mão, além de umbigo no umbigo e virilha na virilha, em outros casos...

Steve Jobs desenvolveu instrumentos, mas não se preocupou com o uso deles, apenas em vendê-los ao máximo possível. Realmente, ele não tem culpa do mau uso que as pessoas fazem deles, assim como quem inventou o revólver e a bomba atômica pode ter tido boas intenções...  Até porque seus equipamentos tem um alto potencial benéfico à humanidade, basta sabermos usá-los. Se por um lado, foram instrumentos utilizados na Primavera Árabe, certamente tiveram influência no “Motim dos Sem Ipad”, em Londres.

Mas se Jobs não tem culpa pela má destinação de seus aparelhinhos  e pela idiotização em massa de seus usuários,  também não deve ser endeusado e comparado a Gandhi e nem a John Lennon. Ele foi apenas um desenvolvedor de produtos e um  vendedor de sucesso,  e não deveria ter mais divulgação na mídia do que aquele cientista que pesquisa a trinta anos, num laboratório frio da Sibéria, a cura do câncer do pâncreas...

Mas não emito minhas opiniões com a pretensão de generizá-las, e sim como um convite  às pessoas para repensarem as “verdades” massificadas  pela mídia. E repensando, pode ser que elas fiquem até mais convictas da importância de Jobs e seus brinquedinhos para a evolução do ser humano.

Mas sinceramente, eu sentiria mais a morte daquele pesquisador anônimo da Sibéria, ou mesmo, do vizinho que não me cumprimenta e do colega que não conversa...

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