segunda-feira, 24 de outubro de 2011

PRISIONEIROS DE IMAGENS, A VIDA EM ESPELHOS


"Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido." (1 Corintios 13:12)
 
Vendo a multidão de 100 mil pessoas de pé se espremendo(e às vezes na chuva, sem banheiro e sendo furtado) em frente à alguns violeiros no Rock in Rio,  fico tentando entender o que leva tanta gente a essa situação de inferno, se sentir no paraíso. Bem, não é para escutar um bom  e potentíssimo som, pois hoje a tecnologia disponibiliza equipamentos capazes de estourar os tímpanos no conforto do lar. E quem viu Axl Rose cantando com uma voz ridícula de pato desafinado, sabe que pelo preço que pagou no ingresso, poderia comprar todos os cd´s e dvd´s com as melhores gravações da banda. Antes que pensem que sou um chato,  retruco que prefiro ser chato do que burro... Mas não é esse o rumo que eu queria dar à essa prosa...
 O que eu acho que leva parte dessa multidão a fazer de tudo para ficar à frente de seus ídolos é o velho narcisismo. E, sobre ele,  aí vai um esclarecimento do psicanalista Contardo Cagliaris:

A personalidade narcisista é a que melhor resume a subjetividade contemporânea. O narcisista não é, como sugere a vulgata do mito de Narciso, alguém apaixonado por si mesmo ou por sua imagem no espelho. Ao contrário, o problema do narcisista é que ele depende totalmente dos outros para se definir e para decidir seu próprio valor: ele se orienta na vida só pela esperança de encontrar a aprovação do mundo. 
Infelizmente, nunca sabemos por certo o que os outros enxergam em nós. Às vezes, o narcisista se exalta com visões grandiosas de si, ideias infladas do amor e da apreciação dos outros por ele; outras vezes, ao contrário, ele despenca no desamparo, convencido de que ninguém o ama ou aprecia. 
Ora, a modernidade é isso: um mundo sem castas fixas, onde cada um pode subir ou descer na vida justamente porque seu lugar no mundo depende da consideração (variável e sempre um pouco enigmática) que os outros têm por ele. 
Ou seja, a modernidade nos predispõe a um transtorno narcisista permanente e, no coração
 dessa personalidade narcisista (sina de nosso tempo), há uma oscilação bipolar” (euforia e depressão).

Entendo que a maioria das pessoas daquela multidão, assim como, quem persegue a fama, ou persegue ídolos, ou não consegue viver sem a fama, ou não consegue viver sem um ídolo, ou outros tipos de reflexos e espelhos subjetivos,  têem grande dificuldade de formação de uma auto-imagem e conseqüentemente de auto-afirmação,  e portanto, de autonomia e independência em relação aos outros e às imagens. Daí a dependência psicológica da tv, Internet, dos outros,  etc. Mas o que é a perseguição do sucesso ou fama ou status social? Não é nada mais que a perseguição à admiração, a ser admirado pelos outros (pelas mulheres, pelos amigos, pela família, etc), ou a outra face da moeda, como o medo de errar em público, o medo de não ser aceito, o medo de não ser querido. Isso é tão ruim assim? A princípio não, até porque nenhum ser humano conseguiria fugir disso, dessa necessidade de espelhos no mundo. O problema são os transtornos da personalidade narcísica como a depressão, a ansiedade, o egoísmo, a falta de solidariedade, a dificuldade de interação social, etc.

Digo que ninguém conseguiria fugir totalmente dessa necessidade, talvez influenciado pela frase bíblica supratranscrita. E talvez só conseguiremos enxergar a nossa verdadeira face (e não mais precisar de espelhos), quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.” (Corintios 13:10)

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