segunda-feira, 24 de outubro de 2011

PERDAS E SOFRIMENTOS, SOB A VISÃO ORIENTAL

Como você reagiria se em um acidente de carro você perdesse sua família, esposa, filhos? E se acontecesse um incêndio em sua casa ou outra tragédia e você além dos citados, perdesse também irmãos, pais. E se pior, acontecesse um terremoto, seguido de tsunami, ou um deslizamento de terra destruísse parte de sua cidade e matasse além de todos esses, os seus amigos, colegas de trabalho, etc.? Tua vida ainda teria sentido? Você acharia que valeria a pena continuar vivendo?

Você deve ter pensado que a última opção aconteceu no Japão e nas Serras Cariocas, recentemente. E como os afetados estão reagindo?

Vou propor outra pergunta que posteriormente ajudará a responder a primeira. Pode um livro moldar o comportamento, a psicologia de um povo?

Bem, os primeiros livros escritos sobre religião tinham esse poder. Assim, os textos que formam a Torá, O Velho Testamento do Cristianismo e o Corão, sendo esses dois últimos complementados pela história de Jesus e de Maomé, respectivamente, moldaram o comportamento, a psicologia e a moral de seus povos. E assim foi com as diversas ramificações de textos do Budismo  no Oriente em geral (Indostão) e do Confucionismo na China.

O judaísmo e seus derivados (islamismo e cristianismo) contem em seu Grande livro, ou Escrituras Sagradas, histórias dramáticas em torno de um Deus personal (Jeová e Jesus)  e de indivíduos (Abraão, Moisés, Apóstolos, Maomé, etc.). Isso ao longo de mais de dois mil anos moldou o caráter, a moral, o comportamento, os ritos de povos centrados no indivíduo, na personalidade, no Eu, no egoncentrismo, em dramas, glórias e sofrimentos  individuais, bem como, na moral de castigo e recompensa (inferno e céu) e pecado-arrependimento-perdão.

Enquanto isso as religiões Orientais, Confucionismo (sistema ético e social) e o Budismo (que está mais para uma doutrina filosófica) não possuem uma divindade e nem personalidades, são focados na doutrina, na lei. E mais do que isso, o budismo nega o indivíduo, ou seja, a idéia de separatismo do todo humano em indivíduos isolados, o que seria uma ilusão, tanto quanto o conceito de EU (personalidade) e MEU (posse). Por isso, prega a anulação do EU, a negação do desejo,  e do desapego a bens materiais e a pessoas. O sofrimento viria de desejar o que não se tem e de ter apego ao que se tem. Isso porque tudo seria transitório, fugaz e perecível no mundo, então não teria sentido ser apegado ao que é passageiro. O próprio Buda é negado enquanto divindade, e o termo Buda é atribuído a qualquer um que atinja o Nirvana. O Budismo prescinde de toda relação pessoal com um deus, já que é uma doutrina essencialmente atéia em que não existem nem o crente, nem a divindade. Não se alcança o Satori (o equivalente do Nirvana no Budismo Zen) mediante a adoração, o temor, a fé, o amor de Deus ou a penitência, se trata de uma disciplina que busca a paz e elimina as más emoções. El mestre Zen TE-Shan nunca rezou, nunca pediu que suas culpas fossem perdoadas, nunca venerou a imagem de Buda, nunca leu as escrituras, nem queimou incenso. Tais ações eram, para ele, meras formalidades, só  interessava a busca incessante e intensa do Satori( estado perene de plena felicidade e paz). Alguém nesse momento pode estar pensando: “Então, eu sou budista e não sabia...”

Mas não. O curioso é que algumas técnicas de anulação do Eu, de desapego, como a meditação, são encontradas em quase todas as religiões, como nos monastérios católicos, no hábito dos franciscanos, etc. Porém, apenas no budismo essas práticas são difundidas entre a população, pelo menos no budismo original, e não ficam restritas a ordens isoladas ou a altos níveis hierárquicos.  

Voltemos àquela pergunta: Como reagiu o povo japonês diante das tsunamis, terremotos e dos 20 mil mortos? E como reagiu o povo brasileiro diante dos deslizamentos e dos mil mortos nas serras cariocas?
Temos notícias que lá estão construindo pontes em tempo recorde, reorganizando as cidades destruídas, retomando a produção e o cotidiano normal das vítimas. Aqui, no Brasil, desviaram as verbas para reconstrução das casas, fraudaram licitações, um prefeito foi afastado, o vice morreu de infarto, e as vítimas continuam sem assistência e sem moradia. Bem, a corrupção, é no fundo um grande egoísmo, quando um pega para si o que pertence a milhares, ao povo. É uma consequência da obsessão pelo Eu, do culto à personalidade, do egocentrismo.

Não estou fazendo apologia, nem proselitismo do budismo, até porque quanto às artes, música e literatura, minhas áreas de maior interesse, o individualismo é importante, e produz as obras mais originais e ricas da humanidade. Mas talvez seja interessante buscarmos o caminho do meio entre ocidente e oriente e  aplicarmos certas práticas no dia-a-dia, que não são budistas mas universais, como a meditação, a diminuição do ego, o desapego ao material, a humildade ao invés da vaidade, a contenção do desejo, o coletivismo em detrimento do individualismo,  o respeito ao próximo nas relações pessoais, no trânsito, no comércio, etc.

Os japoneses tem uma característica que é a de num primeiro momento sempre dar razão ao seu interlocutor,  de modo que, ao invés de ficar pensando em rechaçar suas opiniões, busca assimilar o que elas tem de melhor, buscando sempre o diálogo, evitando os monólogos a dois. Aprendamos também essa prática...

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