segunda-feira, 31 de outubro de 2011

MÍDIA E (IN)FELICIDADE



Disse Nelson Rodrigues que a tv acabou com as janelas. Entendo isso como símbolo de que antes da tevê o exemplo de ser humano para as crianças e adolescentes era apenas os pais, os irmãos mais velhos, os parentes, os vizinhos, etc., etc. Depois da tv, esta se tornou o referencial de ser humano, de como se comportar, de como agir, do que falar, do que fazer, do que comprar, de como viver, de como ser feliz, de como ser, enfim. E é quase impossível os pais, a escola, ou qualquer um concorrer com ela, dados os seus recursos.
 
Eu disse que ela é o referencial "de como ser feliz", mas arrisco também a dizer que é quase impossível ser feliz depois da tv, ou seja, depois de ter sido criado e educado pela experiência da tv. Isso porque ela nos dá modelos de felicidade que são inatingíveis para a maioria das pessoas. Ela prega que você só pode viver em uma alegria eufórica (o sinônimo de felicidade televisiva) se possuir aquele carro, aquela casa, viver naquele estilo de vida, ter aquele mulherão, aquele eletrodoméstico, vestir aquela roupa de grife, aquele tênis, beber aquela marca de cerveja (e depois dirigir em alta velocidade aquele carrão...), consumir o que ela dita, enfim. Como a tv nos faz desejar o tempo todo coisas que não podemos ter, nos tornamos um bando de ansiosos frustrados, depois ranzinzas, irritadiços e por fim deprimidos.
 
Alguém pode argumentar que estou super-valorizando e dando super-poderes à essa janela eletrônica de som e imagens coloridas. Mas então, desafio esse alguém a calcular a contribuição ao PIB das ilusões que a tv vende (tv lato senso, incluindo cinema, internet, etc.). Somando as ilusões diretas (como a indústria fonográfica, cinematográfica, internética, midiática, etc.) ao valor que a indústria da ilusão agrega aos produtos, teremos um resultado incalculável. Isso porque os produtos que a mídia vende, além de terem embutidos os altos custos da propaganda, possuem preços estratosfericamente maiores do que seus custos de produção. Por exemplo, quando um adolescente ou um adultoscente compra um tênis da nike por R$600, quanto ele está pagando pela grife, ou seja, pela ilusão desse produto (80, 90%?). Consequentemente o grande lucro dessas marcas, o grande negócio dessas empresas é vender status, ou seja, ilusão. Agora, imagine que quase todo produto tem uma marca, uma grife, uma propaganda, uma venda de ilusões (também conhecido como consumismo). Então tente vislumbrar o impacto das Ilusões na economia... O Capitalismo Industrial, funcional, racional já foi superado. Vivemos no Ilusionismo Capitalista.
 
Agora imagine alguém muito pobre, criado em uma favela, cujo único entreterimento é a tv. Durante anos ele é educado por um mestre ou pai eletrônico que repete o tempo todo: Só é feliz, só é o bonzão, só é o cara, o sujeito que tem este tênis, esta roupa, este boné, este walk-man, este celular, etc.. Quem já andou a pé pelo centro das cidades brasileiras, ou tem filhos adolescentes que já foram assaltados, sabe que o alvo dos "pivetes" são os tênis de marca, as roupas de grife, os bonés maneiros, os sonzinhos e os celulares da moda. E eles não roubam para vender (a não ser que sejam viciados em drogas), roubam para desfilar na favela, impressionar uma garota, os amigos, como qualquer adolescente típico.
 
Falei em drogas e vou adiante. Qual o outro caminho para esse jovem além da criminalidade? O mergulho, a fuga para o mundo das drogas. Fugir desse mundo que só lhe mostra a miséria, a violência, e a infelicidade, já que não lhe foi apresentado outros caminhos nem pela família, nem pela favela, nem pela escola, nem pela mídia. E outros caminhos existem, mesmo para a pobreza.
 
Se aquele mesmo alguém argumentar de novo que estou exagerando, lembro-lhe que o Brasil, as favelas, as periferias, até os anos 60, eram mais miseráveis, mas sem violência e criminalidade. E quando roubavam era realmente para não morrerem de fome... Mas naquele tempo, aquelas pessoas conheciam outros caminhos. Caminhos que levaram à invenção do samba, do maracatu, do congo, da capoeira e de tantas manifestações culturais. Caminhos por onde andaram Machado de Assis, Donga, Cartola e Nelson Cavaquinho do Morro da Mangueira, Luiz Melodia do Morro do Estácio, etc.
 
Por outro lado, para quem não sofreu nenhuma influência da mídia, bebida é água, comida é pasto, roupa é um pano que se joga sobre o corpo, carro é qualquer coisa de quatro rodas com motor, casa é um teto que te acolhe e te protege das intempéries, mulher não é de silicone e anabolizantes, shooping não é lugar de ser feliz. Mas essa pessoa não existe. Porque a gente não quer só comida, não quer só bebida, etc. Mas a gente também não quer só consumir. A gente quer amizade, amor, solidariedade, sentimentos, liberdade, transcendência, felicidade verdadeira, enfim. Mas, apesar da mídia nos tentar convencer do contrário: nada disso está à venda...

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